Depoimento de Ex-Aluna do Campus Centro

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O Colégio Pedro II é uma instituição quase bicentenária que forma muita mais que profissionais e sim cidadãos. Cidadãos que tem o dever de atuar em nossa sociedade e promover a justiça como também solidariedade na mesma.

A formação humanista, com foco na abordagem científica, deixa laços nos jovens que por aqui passaram. O senso de pertencimento a um grupo único, como descrito como “soldados da ciência” no Hino dos Alunos do Colégio Pedro II, é uma realidade nunca negada pela maioria dos ex-alunos.

Abaixo disponibilizamos o depoimento da ex-aluna Glenda Carlos Ferreira de Almeida, formanda de 2008, feito em seu perfil no Facebook em 6 de maio do ano corrente:

Eu tinha 10 anos, meus pais não conseguiam mais arcar com a mensalidade do colégio; o que fazer?

Sofri bastante até que achássemos um caminho juntos (sim, eles me incluíam nas decisões, o que me fez amadurecer muito cedo); percebia a angústia que sentiam do futuro, de não conseguirem me dar a educação que sonhavam.

Foram inúmeras tentativas de solução, muitos ‘nãos’, até que mamãe e papai vieram com uma espécie de proposta: ‘filha, sua tia nos contou sobre um colégio público no Rio que é um dos melhores do Brasil, e é gratuito. Mas, para conseguir estudar lá é preciso fazer uma prova e passar. A concorrência é grande; mas você topa tentar?’

Eu era uma criança aplicada, dessas que faz o dever antes de ir brincar – e desde aquele momento, juro, vislumbrei a possibilidade de estar com outros parecidos comigo, que também gostavam de estudar e que acreditavam que podiam fazer algo útil para a humanidade; além disso, a possibilidade de poder ser ‘alguém importante’, respeitada não pelo que tinha ou deixava de ter, mas pelo que eu sabia (juro que eu já pensava nessas coisas).

Então topei, sem pestanejar. Meu pai arrumou uma apostila para eu estudar, li o edital de cabo a rabo e preparei sozinha meu programa de estudos – lembrando que, na época, entre 1999 e 2001, computador e internet eram raridade; foi tudo à base de livros emprestados.

E lá fui eu fazer a tal prova, depois de um período de férias inteirinho só de exercícios. Também seria a primeira vez visitando o prédio, uma construção histórica, bem no coração do Centro do Rio – uma coisa de encantar.

Pois bem: na contramão de minhas expectativas, voltei chorando; tinha sido muito mais difícil do que imaginava (nível impossível mesmo, rs) – e aí você pode supor o que se passou na cabeça dessa criança boazinha que queria ajudar os pais; medo de tudo. Mas quer saber? Tinha alguma coisa naquele lugar mágico que não deixou eu desistir; no próximo ano, eu precisava tentar de novo para entrar lá e descobrir; era uma questão de propósito, sabe?

Lembro-me com orgulho da determinação da qual me imbuí nos “365 dias” que se seguiram. Mudei de colégio (fiz o bolsão e fiquei em 1º lugar), fiz novas amizades (principalmente com os professores, rs), e deixei de brincar na rua inúmera vezes para estudar. E a verdade é que eu não fazia ideia do quanto isso tudo iria significar.

Muito mais calma dessa vez, segura de minha dedicação e força de vontade, fui encarar as temidas questões. Na saída, a incerteza ainda imperava – mas já no segundo reinado, rsrs. O resultado final? Só em num sei quanto tempo? Mas as notas seriam publicadas na Folha Dirigida; como eu lembro do dia que meu pai calculou a média de TODOS os candidatos, para ver se eu ‘tava dentro’.

E quer saber? Tava sim, em 37º lugar (de 40/45) – minha primeira conquista da vida.

De repente, aquele lugar mágico se transformou em minha esperança de futuro, de saber, de ser – ainda que também significasse eu acordar 4h30min da manhã de segunda a sábado, ou enfrentar engarrafamentos quilométricos de 3 h a 4 h todo santo dia. Nada disso importava – aquele lugar mágico me pertencia, era parte de mim, me formava.

Lá, tive acesso a um educação multidisciplinar que me permitiu trçar um caminho coerente com o que mais importa para o mundo hoje (e para o mercado), e que vai importar ainda mais num futuro breve. Lá aprendi que criatividade é questão de Educação, que colaboração é questão de Educação, que empatia é questão de Educação.

Através desse lugar mágico, experimentei Português, Matemática, História, Geografia, Biologia, Física, Química, Sociologia, Filosofia, Inglês, Francês, Música, Artes Visuais, Desenho Geométrico… Cruzei saberes, relacionei vivências, solucionei problemas, expandi meu horizonte – E FOI TÃO BOM!

Hoje, tenho ainda mais certeza sobre o quanto isso tudo aqui em cima importa mais do que ‘passar no vestibular’; mas não seja por isso: passei para as melhores universidades públicas do país: USP (8º lugar), UFRJ (12º lugar), UERJ (14º lugar), UFF (8º lugar) e UFRRJ (1º lugar).

Como tenho orgulho desse ciclo em que vivi no meu lugar mágico, cercada de pessoas diversas, dedicadas e inesquecíveis, que sonharam comigo e com minha família – e me inspiram até hoje a insistir em ser uma profissional competente, justa e ética.

Print de postagem da ex-aluna Glenda Almeida
Print de postagem da ex-aluna Glenda Almeida

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