O NAPNE do Campus Centro Compartilha Reflexões sobre a Rotina de Crianças e Adolescentes Autistas em Tempos de Isolamento

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Pessoas com autismo costumam apresentar resistência a mudanças, além de bastante apego à rotina. É de se imaginar, então, que elas não estejam nada satisfeitas com o atual cenário mundial, causado pela pandemia de Covid-19. Claro que a grande maioria da população mundial não está satisfeita com o que está acontecendo, mas para crianças e adolescentes no espectro do autismo a situação pode ser ainda mais complicada.

No Brasil, as aulas presenciais nas escolas estão suspensas desde março. Apenas isso já altera drasticamente a rotina dos estudantes, que estavam acostumados a passar cerca de cinco horas diárias na escola. Além disso, as terapias e atividades comumente realizadas por crianças e adolescentes autistas também não estão ocorrendo na modalidade presencial. Psicoterapia, fisioterapia, fonoaudiologia, consultas médicas, práticas regulares de esportes, entre outras atividades que fazem parte da rotina de tantos autistas foram interrompidas ou estão sendo realizadas on-line.

Foram muitas mudanças de uma hora pra outra, não é mesmo? E toda essa quebra de rotina pode gerar tristeza, irritabilidade, isolamento, agressividade ou hiperatividade nos autistas, o que pode provocar, também, sensação de frustração e de incapacidade em seus familiares. O que a família pode fazer para tornar o período de distanciamento social mais agradável para as crianças e adolescentes autistas?

Em primeiro lugar, a família pode e deve explicar com clareza o que está acontecendo no mundo. Utilizando linguagem adequada para a idade e também mídias informativas (jornais impressos, TV e vídeos na internet, por exemplo), autistas poderão compreender o motivo dele não poder ir para a escola neste momento. Para crianças menores, utilizar desenhos e colagens pode ajudá-las a entender. Por mais que eles possam não gostar disso (afinal, quase ninguém está gostando), entender a causa pode ajudá-los a respeitar as novas regras. É importante lembrar que é possível conversar e explicar a pandemia até mesmo para os autistas com maiores comprometimentos, desde que se use linguagem adequada, imagens, entre outros recursos.

O segundo passo é estabelecer uma rotina com horários definidos. As rotinas ajudam na organização do mundo dos autistas. Se antes eles tinham hora para acordar, para almoçar, para tomar banho e para dormir, por que agora seria diferente? Tente manter uma rotina e permita que a criança ou adolescente autista veja a ordem e os horários de cada atividade. Uma boa ideia é afixar um quadro de horários num lugar comum da casa, como a sala ou a cozinha. Para as crianças menores, é interessante que esse quadro de rotinas contenha figuras, com as ilustrações dos horários e atividades. A criança/adolescente pode participar da montagem de sua própria rotina, dando opiniões de atividades de lazer e também de horários. Para os familiares que estão em home office, a rotina pode também ajudá-los no trabalho. Ou seja, manter uma rotina durante a quarentena pode trazer benefícios para a família inteira.

Outro aspecto importante a ser mantido neste período são as atividades motoras ou atividades físicas. Essa dica vale tanto para os autistas quanto para os não autistas e também os familiares. Para as crianças menores, incentive brincadeiras agitadas, para que elas gastem energia. Brincadeiras agitadas dentro do apartamento? Sim! Criar um circuito com cadeiras na sala, para que elas subam em umas e passem por baixo de outras, alternadamente, pode ser uma atividade divertida. Para os adolescentes, separe um momento do dia para atividades físicas e participe junto com eles. Agachamentos, polichinelos, prancha, entre outros exercícios, são fáceis de fazer em ambientes domésticos. Existem vídeos na internet contendo mais exercícios para se fazer em casa.

Ainda dentro das atividades motoras, as crianças e adolescentes autistas podem também ajudar nas atividades domésticas. É interessante incluir na rotina diária atividades como lavar a louça do almoço, estender as roupas no varal, arrumar a cama, etc. Crianças menores podem acompanhar os familiares em algumas atividades domésticas mais simples, como, por exemplo, recolher as roupas do varal. Participar dos afazeres domésticos, além de ser uma atividade motora, será importante para o desenvolvimento da autonomia destas crianças e adolescentes.

Autistas costumam ter maior sensibilidade a sons e luminosidade, entre outras coisas. Neste período de distanciamento social, pode ser que tenham mais pessoas em casa: por exemplo os pais, em home office, e irmãos, que também estão sem aulas presenciais. Pode acontecer dos autistas se incomodarem com barulhos ou movimentações maiores. Neste caso, crie um ambiente silencioso para que a criança ou adolescente autista possa se refugiar caso se sinta desconfortável ou ansioso. Pode ser um cantinho da casa ou mesmo seu próprio quarto. Mas é importante ficar atento para que ele ou ela não se mantenha isolado neste cantinho a maior parte do dia, pois isso pode significar uma regressão nos comportamentos sociais.

Importante: Autistas costumam ter hiperfoco. Isso significa que é muito fácil para eles ficar o dia inteiro fazendo uma única atividade, principalmente se for uma atividade da qual ele goste muito, como, por exemplo, jogos eletrônicos ou desenhar. Cuide para que esse “cantinho silencioso” não seja utilizado por longos períodos do dia, para que a criança/adolescente não se afaste da família e de outras atividades.

Vai ser fácil? Talvez sim, talvez não. Pode ser que algumas crianças e adolescentes não obedeçam às instruções e se irritem porque tudo está tão diferente. Mas é preciso insistir, um pouquinho a cada dia, pois é devagar que elas vão começar a entender a nova rotina. “Se a criança conseguir fazer um minuto de atividade, tudo bem. Mais tarde, você tenta de novo e vai sempre adaptando, conforme as necessidades dela” (Mariana Tonetto, Terapeuta Ocupacional).

Referências:
ARARIPE, Natalie Brito et al. NOVOS ARRANJOS EM TEMPOS DE COVID-19: APOIO REMOTO PARA ATENDIMENTO DE CRIANÇAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, [S.l.], v. 15, n. 2, maio 2019. ISSN 2526-6551. Disponível aqui. Acesso em: 16 jun. 2020.

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